Espaço de Convivência - Complexo do Turano

Inspirada na Maison Verte, dispositivo criado pela psicanalista francesa Françoise Dolto, e adaptado à realidade das comunidades em vulnerabilidade social do Rio de Janeiro, o Espaço de Convivência da Casa da Árvore é um dispositivo clínico e coletivo voltado para as questões da primeira infância, e tem como objetivo contribuir para a construção de um ambiente saudável para o desenvolvimento infantil, a partir da circulação da palavra e da escuta sensível e qualificada à criança através de seu meio privilegiado de comunicação: a brincadeira.

 

Com um encontro coletivo semanal de 2 horas e uma equipe fixa de 3 profissionais de saúde, o projeto atua no cuidado de crianças e suas famílias da comunidade do Morro do Turano desde 2003 em diferentes formatos.

De 2015 até 2020, o projeto se desenvolveu na Clínica da Família Estácio de Sá, localizada no bairro do Rio Comprido, zona norte da cidade do Rio de Janeiro. A Clínica atende a população da comunidade do Morro do Turano, que é composta, em sua maioria, por pessoas de baixa renda, com difícil acesso a equipamentos de cuidado em saúde mental e assistência psicológica em geral. Assim sendo, o projeto viabilizou uma aproximação da comunidade com o cuidado em saúde mental, além da valorização do desenvolvimento saudável da criança.  

Com a pandemia de COVID-19 e impossibilidade de retorno do nosso espaço de convivência na Clínica da Família Estácio de Sá (devido a continuidade da pandemia), encontramos no Espaço Cultural Fazendo Arte, uma grande parceria para essa retomada. O espaço funciona também como uma ONG, desde 1992, realizando diversas ações de apoio ao território, oferecendo para as crianças oficinas das mais variadas formas de expressão artística, além de realizarem também aulas de reforço escolar. Desse modo, desde junho de 2021, realizamos nossos encontros coletivos nesse espaço. 

Desde nossa retomada, todas as atividades propostas têm sido bem recebidas pelas crianças e percebemos o valor de uma proposta de ações coletivas entre famílias nesse momento. Mesmo com todas as restrições necessárias para o período atual, a oportunidade de brincar, trocar e compartilhar entre si não perde sua relevância, torna-se ainda mais essencial.

 

A importância da troca e da presença do outro também aparecem nas cuidadoras. Mães que passam a participar ativamente das brincadeiras, organizando e brincando com seus filhos revelam como o infantil no adulto também foi afetado pelo isolamento e que o retorno das atividades presenciais permite que elas explorem e usufruam do espaço disponível.

Apesar de esse projeto não ter critérios de gênero como recorte central em seu desenvolvimento, em se tratando de um projeto que atende a infância, recebemos muitas mulheres, mães/avós/tias, tendo em vista que em nossa cultura as mulheres ficam a frente desse cuidado. Encontramos constantemente na clínica mulheres que vivem exclusivamente em função das crianças, dedicando 100% do seu tempo a elas. Mulheres que perderam seus empregos por causa dos filhos, seus amigos e seus outros momentos de lazer. Mulheres que vivem sozinhas, muitas vezes sem os pais das crianças e sem o apoio de suas famílias. Sem nenhuma rede de apoio. Mulheres que se culpam por tudo isso e que tem muita dificuldade de enxergar sua própria realidade.

 

Desse modo, a partir de um dispositivo terapêutico de cuidado/escuta coletivo, a mãe pode ser auxiliada na busca pelo seu fortalecimento e empoderamento enquanto mulher, acima de tudo. A (re)construção da segurança da mulher nela mesma assim como o estímulo a sua autonomia funciona como uma via de mão-dupla: a mãe estimula a liberdade do bebê e o bebê, deste modo, permite que a mãe seja mais livre.

Objetivo do projeto: 
Disseminar uma política de valorização dos cuidados com as crianças e seus cuidadores, auxiliando pais, familiares, educadores e equipes de saúde – agentes desses cuidados – na construção e manutenção de um ambiente favorável ao desenvolvimento infantil. A Casa da Árvore incentiva a construção e o fortalecimento de redes sociais e afetivas que contribuam para a promoção da saúde mental e prevenção dos efeitos da violência – seja social, cultural e/ou familiar – nas comunidades em situação de vulnerabilidade.